A concepção grega do trágico não era a de um simples sofrimento vão, mas a de uma revelação. A beleza (to kalón) não residia na harmonia estática, mas na intensidade da luta contra os limites, os do destino (moira), da hybris (desequilíbrio) e da natureza humana.
A “beleza trágica” emerge quando um personagem, como Antígona ou Prometeu, afirma sua dignidade ou um princípio superior, mesmo face à derrota iminente.

Essa nobreza na catástrofe gera eleos (compaixão) e phobos (temor) no espectador, conduzindo à catarse. O esplendor do herói está, portanto, indissociavelmente ligado à sua queda, numa fusão de admiração e horror.
O Mundo Contemporâneo como Palco Trágico Moderno
A percepção de uma “nova ordem mundial” em gestação pode ser lida como um processo trágico em escala civilizatória.
As crises atuais: ecológica, pandêmica, geopolítica, não são meros desastres a serem evitados, mas sintomas de um agon (conflito) global que destrói formas antigas para forjar outras.
Como os heróis gregos diante do oráculo, enfrentamos dilemas em que toda escolha tem um custo imenso.
A superação “aterrorizante” da crise reflete essa dimensão: a transição para uma ordem multipolar, a reconstrução pós-pandemia, a adaptação à inteligência artificial, cada um desses processos traz perdas irreparáveis e uma beleza perturbadora em sua dimensão épica e transformadora.
Figuras Prometeicas na Era Contemporânea
Quem seria o “Prometeu” de hoje? Podemos pensar em múltiplas respostas, cada uma simbolizando um aspecto da nossa hybris criativa e de sua consequente punição.
A Ciência e a Tecnologia: A humanidade, como Prometeu, roubou o “fogo” do conhecimento atômico, da genética e da IA. Colhemos os benefícios (luz, calor, progresso), mas também o terror de uma possível autodestruição ou de um poder descontrolado.
A beleza está na audácia do saber; a tragédia, na responsabilidade insuportável que ele traz.
O Ativismo Climático e Civilizacional: Figuras e movimentos que desafiam a “ordem divina” dos sistemas econômicos e políticos estabelecidos, alertando para o futuro e sendo, por vezes, “acorrentados” ao ridículo, à repressão ou ao desespero. Sua luta tem a beleza da resistência e a tragédia da possível derrota ou do sacrifício necessário.
A Própria Humanidade Coletiva: Num sentido amplo, somos nós, como espécie, o agente prometeico. Nossa capacidade de transformar o mundo alcançou uma escala titânica, gerando uma crise ecológica e existencial.
A superação exigirá uma reinvenção dolorosa de nossos valores e modos de vida. um caminho repleto de sofrimento, mas também de potencial para uma nova forma de ser.
A Catarse Coletiva como Possibilidade
A tragédia grega era um ritual cívico. Assistir ao sofrimento do herói permitia à polis refletir sobre seus próprios conflitos.
Hoje, vivemos uma “tragédia sem palco”, global e fragmentada.
No entanto, a exposição coletiva a crises planetárias pode estar funcionando como uma catarse difusa, um choque que nos força a reavaliar mitos modernos (como o progresso infinito ou a soberania absoluta) e a buscar novas narrativas.
A “beleza trágica” de nosso tempo pode residir justamente nessa tomada de consciência, por mais dolorosa que seja: ao encarar o abismo, somos obrigados a criar significado.
Conclusão Ampliada:
Portanto, a “trágica beleza” é mais que um conceito estético; é uma categoria existencial e histórica.
Ao vincular nossa era à grega, identifica-se um padrão profundo: os momentos de maior crise são também os de maior potencial criativo e revelação ética.
O terror e a beleza estão entrelaçados porque estamos participando de um nascimento, e todo nascimento envolve a dor da ruptura e o esplendor do novo.
A questão que fica, como nas melhores tragédias, não é se haverá sofrimento, mas qual significado extrairemos dele e que tipo de catharsis: purificação ou aprendizado coletivo? qual deles seremos capazes de alcançar?
SERGIO RIBEIRO
Mestre em Ciências Sociais pela PUC-SP
Vice-Presidente Estadual do PT-SP
Prefeito de Carapicuíba por 02 mandatos







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