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Perfil de pessoas em situação de rua muda com a pandemia

Situação de rua
portalregiaooeste
fevereiro09/ 2022

Clara Assunção Rede Brasil Atual – Foto Pedro Stropasolas

“Nunca imaginei”, diz ex-motorista de aplicativo que vive com a esposa na Sé, entre ações do “rapa” e busca por emprego
Glaucielle Martine e Almir Marques vivem desde setembro de 2021 dentro de uma barraca, no marco zero da cidade de São Paulo. O aluguel de R$ 500 que pagavam por um quarto no Parque Dom Pedro ficou inviável depois que o preço do combustível disparou, e as corridas que Almir fazia, como motorista de aplicativo, estavam deixando o bolso mais vazio do que cheio.

Segundo levantamento de dezembro de 2021 feito pela prefeitura de São Paulo, a população de rua da capital paulista chegou a 31.884 pessoas naquele ano, sendo 7.540 pessoas a mais em relação a 2019, o que representa um aumento de 31%.

Entre as milhares de pessoas que passaram a viver nas praças e calçadas da cidade de São Paulo durante a pandemia de covid-19, o casal é exemplo do que vem se chamando de um novo perfil da população em situação de rua. São aqueles que estão nessa condição pela primeira vez, muitas vezes com família e vivendo em barracas.

Aos 37 anos, Glaucielle conta que trabalhava com reciclagem de papelão, mas viu seu serviço desvalorizar ao mesmo tempo em que a inflação escalou preços de itens básicos de sobrevivência, como os alimentos. “Enquanto estava R$ 1 o quilo do papelão, a gente conseguia pagar o quarto. Aí o papelão caiu para R$ 0,40. Ou pagava aluguel, ou comia”, relata.

Censo 2021 da população de rua
O censo da população em situação de rua em São Paulo foi encomendado pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) para a empresa Qualitest Ciência e Tecnologia e divulgado no final de janeiro.

A pesquisa aponta que, de 2019 para cá, o número de barracas pelas ruas aumentou 330%. Antes da pandemia, eram 20% as pessoas que informavam viver nas ruas junto com membros familiares. No fim de 2021, o percentual foi para 28,6%.

Grupos que atuam nesse tema há décadas — a exemplo da Pastoral do Povo de Rua, encabeçada pelo padre Julio Lancellotti, e do Movimento Nacional da População em Situação de Rua (MNPR) — contestam a metodologia do censo e afirmam que seu resultado está subnotificado.

O rapa
Todos os dias, Glaucielle e Almir armam sua barraca ao entardecer. Às 4h, eles e todos seus vizinhos já desmontam, antes que chegue a zeladoria da prefeitura, popularmente chamada de “rapa”.

Os relatos colhidos pela reportagem na praça da Sé foram unânimes: quem não guardar seus pertences ainda antes de o sol nascer corre sério risco de perdê-los.

Um posicionamento da prefeitura a respeito da prática foi requisitado, mas até o momento não houve resposta.

Almir é uma das mais de 25 milhões de pessoas no Brasil que pegaram covid-19. “O rapa não me permitiu ficar isolado para não transmitir para as outras pessoas. No terceiro dia em diante, já tive que ficar desmontando barraca e ficar circulando”, relata.

Tem de circular, mas não para muito longe. “A gente não sai daqui, da praça. Não consegue por causa do pessoal do rapa, né? Que tem gente aí que fala que é a zeladoria, mas aqui é o rapa. Então não tem como”, descreve. “Tem o plantão ruim que chega e já leva, leva barraca, roupa, leva tudo”, complementa.

Acesse aqui e veja a reportagem completa.

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