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Às vésperas do segundo turno, intolerância e atos de violência ganham destaque no cenário político

foto_BBC
portalregiaooeste
outubro15/ 2018

Texto: Diretoria do Sinprosasco

A imagem de uma mulher com um desenho riscado em sua pele foi compartilhada à exaustão em diversas redes sociais na quarta-feira passada, 10. A jovem é moradora de Porto Alegre e disse ter sido abordada e agredida por três homens por causa de uma camiseta com a frase “Ele não” que estava usando – em referência ao movimento de mulheres contra o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL).

De acordo com a vítima, que não teve seu nome revelado por questões de segurança, o grupo a atingiu com socos e usou um canivete para desenhar uma suástica em sua barriga. Segundo Gabriela Souza, advogada da vítima, sua cliente foi atacada gratuitamente por estar com um adesivo com os dizeres “#EleNão” e um arco-íris, símbolo LGBT.

O jornalista do Uol, Leonardo Sakamoto, questiona em seu blog porquê Bolsonaro não tem repudiado de forma enérgica e consistente as perseguições, agressões e até assassinatos cometidos por indivíduos de sua militância (indivíduos, não a massa de eleitores). Para ele, já que o candidato é considerado exemplo e liderança para muita gente e já prometeu, repetidas vezes, pacificar o país, caso eleito, “poderia começar pedindo a seus seguidores que optem pelo diálogo ao invés da violência, dizendo que esse comportamento será reprimido em seu governo”. Para o jornalista, “o silêncio de hoje alimentará um monstro incapaz de ser controlado amanhã, levando à normalização da porrada como resposta à discordância política”.

Vale lembrar que Jair Bolsonaro recebeu a solidariedade de todos os adversários políticos quando sofreu um atentado contra sua vida, no dia 6 de setembro, em Juiz de Fora (MG). Os candidatos até paralisaram sua ações de campanha por terem considerado grave o que aconteceu ao ex-capitão. Os políticos lembraram que diferenças se resolvem pelo diálogo, não calando ou matando o outro.

Ainda sobre o atentado contra a jovem de Porto Alegre, algo que também chamou muito a atenção de todos e teve forte repercussão na mídia foi a declaração do delegado titular da 1ª Delegacia de Porto Alegre, Paulo Jardim, responsável pela investigação do caso, que disse que o desenho não se trata de um símbolo extremista.

“Eu fui olhar o desenho que fizeram na barriga dela. É um símbolo budista, de harmonia, de amor, de paz e de fraternidade. Se tu fores pesquisar no Google, tu vai ver que existe um símbolo budista ali”, afirmou em entrevista à BBC News Brasil.

Ele criticou ainda a cobertura da imprensa sobre o caso e disse que veículos de comunicação estão “forçando uma barra, insinuando mil e uma situações que não é nada que tem nos autos”.

O historiador e jornalista Marcos Guterman, autor do livro Nazistas entre Nós, explica que os primeiros traços do símbolo surgiram nas culturas orientais. No contexto do sânscrito, ele significa boa fortuna ou boa sorte e pode ser encontrado em diversas religiões asiáticas, inclusive o budismo. No entanto, apesar de reconhecer que a suástica tem outras aplicações, ele descarta que o desenho na foto da jovem de Porto Alegre signifique algo como “paz e amor”.

“Existe essa relação religiosa, mas neste caso claramente não se trata disso. A agressão é diretamente relacionada com o nazismo. Não precisa ser policial para saber”, diz Guterman.

Desde o início do ano até 7 de outubro, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) registrou 137 agressões e ameaças contra jornalistas por conta da cobertura do processo eleitoral – boa parte delas ligadas a defensores de Bolsonaro.

Uma recente vítima dessa loucura foi o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, o Moa do Katendê, de 63 anos, assassinado com 12 golpes de faca. Após ter defendido o candidato do PT, Fernando Haddad, em uma discussão sobre as eleições presidenciais, ele foi atacado e morto por um defensor de Jair Bolsonaro, num bar na periferia de Salvador, na madrugada de segunda, 8. A polícia conseguiu prender o suspeito, que confessou o crime.

No dia anterior, uma jornalista foi agredida e ameaçada de estupro, após votar, em Recife (PE). Segundo a vítima, os agressores afirmaram que “quando o ‘comandante’ ganhasse, a imprensa toda ia morrer”. Um deles usava uma camiseta preta com a foto do candidato  e os dizeres ‘Bolsonaro Presidente’.

Após ser questionado sobre os atos de violência que ocorreram nas últimas semanas, Bolsonaro declarou de maneira provocativa: “Dispensamos voto e qualquer aproximação de quem pratica violência contra eleitores que não votam em mim. A esse tipo de gente, peço que vote nulo ou na oposição por coerência, e que as autoridades tomem as medidas cabíveis, assim como contra caluniadores que tentam nos prejudicar.”

Ele ainda cometeu um ato falho na entrevista à rádio CBN, veiculada na noite de quinta-feira, 11. Ao fazer um discurso contra os votos de pessoas que cometem violência contra seus adversários, o presidenciável disse que ele é vítima do clima de polarização do país. “Sou vítima daquilo que prego”, afirmou. Depois, completou: “Foram 48 milhões de pessoas que votaram em mim, você quer que eu me responsabilize por elas?”, questionou.

O candidato à presidência pelo PT, Fernando Haddad, se mostrou preocupado com a escalada da truculência na campanha. Ele disse que propôs um pacto de não violência. “Estamos conversando com todas as forças que queiram conter a barbárie, que está em escalada no país. Nós temos que botar um fim nessa violência. Violência não se responde com violência”, escreveu em uma rede social.

Para mais informações, acesse o site do Sinprosasco www.sinprosasco.org.br.

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