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Volta o debate sobre violência e segurança nas escolas

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Jucelene Oliveira
março23/ 2019

Texto: Diretoria do Sinprosasco

O massacre ocorrido na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano SP, completou uma semana na última quarta-feira, 20. O colégio foi reaberto na segunda-feira, 18, para funcionários, e ao longo da semana, estudantes e familiares que compareceram ao local foram recebidos com atendimentos especializados, rodas de conversa e atividades esportivas e artísticas.

Tudo isso para tentar minimizar um pouco a dor, a tristeza, a raiva, a frustração e, principalmente, a incompreensão pelo que ocorreu no dia 13 de março, quando dois rapazes, ex-alunos da escola, mataram sete pessoas – cinco alunos e duas funcionárias, e também o próprio tio de um dos assassinos, em uma loja de automóveis próxima dali. A investigação aponta que, depois do ataque à escola, um dos assassinos matou o comparsa e, em seguida, se suicidou.

Essa tragédia tem promovido uma onda de solidariedade na escola e arredores. Alunos de outras escolas e até outras cidades continuam a prestar homenagens às vítimas. Alguns deles levaram cartazes com mensagens de apoio, outros cantaram ou distribuíram flores e abraços.

No mesmo dia em que ocorreu o massacre, várias pessoas públicas e autoridades se manifestaram na TV, jornais e redes sociais em apoio e solidariedade às vítimas, familiares e comunidade, e não demorou muito para que temas polêmicos fossem abordados de maneira contraditória e até irresponsável.

Para o deputado Major Olímpio (PSL), se os “professores estivessem armados, a tragédia seria minimizada”. Ele também afirmou que “o estatuto do desarmamento é uma farsa” e “tira o direito do cidadão de se proteger”.

“Se tivesse um cidadão armado dentro da escola, um professor, um servente, um policial aposentado lá, ele poderia ter minimizado o efeito da tragédia”, disse Olímpio. “Vamos, sem hipocrisia, chorar os mortos, vamos discutir a legislação, onde nós estamos sendo omissos”, publicou também em suas redes sociais.

Já o Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, se pronunciou de maneira mais sensata e racional que o colega parlamentar. Para ele, segurança pública ‘não é responsabilidade do cidadão’. Ele rebateu o argumento de Olímpio sobre “armar professores”.

Para Maia, a segurança pública é monopólio do estado e não responsabilidade do cidadão. Ele falava com jornalistas sobre a tragédia em Suzano e afirmou que esperava que “alguns não começassem a dizer que se os professores estivessem armados teria resolvido o problema.” O presidente da Câmara foi então informado que o líder do PSL no Senado, Major Olímpio, havia dado declaração nesse sentido.

“Eu espero que as pessoas pensem um pouquinho nas vítimas dessa tragédia. Se o Estado não está dando segurança à sociedade, a responsabilidade é dos gestores públicos na área de segurança pública”, explicou Maia. “Agora, já não basta o debate sobre posse; agora, um pedido desse [porte de armas para professores] não é mais posse, é discussão sobre porte em área urbana. Eu acho que aí nós passamos por uma proposta de barbárie no nosso Brasil que não deve avançar”, completou.

Especialistas também foram ouvidos e para eles “É preciso trabalhar cultura de paz e justiça social nas escolas”.

Segundo matéria do jornal Brasil de Fato, publicada em 14/03, grades, câmeras de seguranças, policiamento e até armamento de funcionários e professores são apontadas como soluções para reforçar a segurança em unidades educacionais. Na avaliação de especialistas em segurança e educação, ideias como a do Major Olímpio – assim como a flexibilização do porte de armas, defendida pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) – estão na contramão de medidas que visam combater o problema da violência na raiz.

Segundo Daniel Cara, coordenador geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, ouvido pelo jornal Brasil de Fato, a escola precisa trabalhar a cultura da paz e da justiça social no seu cotidiano. Ele explica que medidas repressoras não combatem as diferentes formas de discriminação e a marginalização de jovens que são considerados “problemáticos” na escola.

“Tem que enfrentar as discriminações, desencorajar a postura dos alunos que acabam embarcando na onda de grupos que disseminam o ódio e que infelizmente encontram respaldo inclusive nos atores políticos. Qual problema desse caso? Quando o ódio encontra a arma, ele encontra um veículo de execução, e resulta nesse caso como de Suzano, como foi a tragédia de Realengo e Goiânia”, disse.
Durante o tiroteio, a merendeira da Escola Estadual Professor Raul Brasil fez uma barricada com freezer para salvar os alunos. Pediu para que todos os estudantes ficassem em silêncio e deitados no chão para que os atiradores não soubessem que eles estavam ali. Daniel Cara acredita que, se os funcionários e professores estivessem armados, a tragédia seria maior.

A coordenadora pedagógica Marilena Ferreira, morta dentro da escola durante o ataque, defendia o porte de livros. “A militarização das escolas e o discurso pró-armamento transformaria essa tragédia maior que Columbine (EUA). Acredito que a coordenadora pedagógica da escola que foi assassinada continua nos ensinando que o melhor caminho para o país é a resolução pacífica de conflitos de escola democrática, dominada pela educação e não militarização”, comenta cientista político.

Já ocorreram no Brasil ao menos sete casos semelhantes ao de Suzano. A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo informou que os procedimentos de segurança em todas as 5 mil e trezentas escolas serão revisados e que está em estudo um projeto para reforço à segurança nas escolas mais vulneráveis.

O prefeito de Suzano, Rodrigo Ashiuchi, afirmou que vai reforçar a segurança não só na Escola Estadual Prof. Raul Brasil, como nos demais colégios do município. Será instalado um departamento destinado à ronda escolar, programa anti-drogas e visita da Polícia Militar às unidades.

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