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“Só lembrou dos movimentos sociais na hora de apagar incêndios”

Frei Beto
portalregiaooeste
abril11/ 2016

Um dos nomes de destaque no governo PT logo que o ex-presidente Lula chegou ao poder, incluindo a coordenação de sua principal bandeira, o Fome Zero, Frei Betto deixou a gestão logo na sequência, em 2004, por não concordar com as alianças feitas pelo partido. Em entrevista ao Portal Uol, divulgada neste domingo (10), o religioso não poupou o PT de críticas nesses 13 anos em que está comandando o País. Segundo ele, o partido precisa “fazer uma séria autocrítica” e “tentar recuperar seus três capitais simbólicos perdidos”: a classe trabalhadora, a ética e as reformas estruturais.

E foi além. Segundo ele, a legenda só se lembrou dos movimentos sociais, que lhe deram origem, na hora de apagar incêndios. Mas, ainda que diante das críticas que faz também ao segundo governo da presidente Dilma Rousseff, ele é contrário à renúncia da presidente ou à proposta de novas eleições. “Se aceitar antecipar novas eleições estará, de fato, renunciando”, disse.

Confira outros pontos da entrevista:
Lula ministro de Dilma – “Não penso que Lula foi chamado em função da possibilidade de impeachment. O governo Dilma está sem rumo e Lula, devido ao êxito de seus dois mandatos, foi convocado para tentar salvá-lo. Por outro lado, como tem muita habilidade política e de negociação – o que falta a Dilma – sem dúvida ele já contribui para evitar o impeachment. Ainda que não lhe permitam virar ministro, ele passa a ser, de fato, o primeiro-ministro”.

Impeachment, renúncia ou novas eleições – “Entre as vozes das ruas e as das urnas, fico com as últimas. Embora crítico do governo Dilma, sobretudo pelo excessivo ônus do ajuste fiscal sobre o segmento mais pobre da população, julgo que qualquer interrupção do mandato da presidente é golpe branco, como já ocorreu em Honduras [com Manuel Zelaya, em 2009] e Paraguai [Fernando Lugo, em 2012]. E, se o governo não completar seu mandato até 2018, abriremos um precedente que favorecerá, em mandatos futuros, permanente instabilidade política. Dilma diz e repete que não renuncia.

Ora, se aceitar antecipar novas eleições estará, de fato, renunciando. E isso significará um reconhecimento público, por parte do PT, de que ele fracassou na condução deste país. O governo tem ainda dois anos e oito meses pela frente. Se o PT fizesse autocrítica e redefinisse os rumos do governo, implementando reformas estruturais que sempre prometeu e nunca realizou, o mandato da Dilma e a credibilidade do partido ainda teriam esperança de recuperação”.

PT de volta a oposição – “Desde que Caim matou Abel, ninguém quer largar o osso do poder. Vide o PMDB: consegue a proeza de manter um pé no governo e o outro na oposição… Assim, tenta garantir o presente e o futuro. O PT só voltará à oposição se assim exigirem as urnas”.

Recuperação da imagem do PT – “Às vezes tenho a impressão de que a ficha do estrago até agora não caiu para o PT. Seus dirigentes presos, são culpados ou inocentes na opinião do partido? A política econômica do governo é de Dilma ou do partido? Como sugerem Tarso Genro e Olívio Dutra, o PT precisa, urgentemente, fazer uma séria autocrítica. E tentar recuperar seus três capitais simbólicos perdidos: ser o partido de organização da classe trabalhadora, ser o partido da ética e ser o partido das reformas estruturais do Brasil. Fora disso, o PT estará condenado a integrar a geleia geral da estrutura partidária brasileira”.

Futuro do PMDB – “O PMDB é o único partido com futuro garantido nessa institucionalidade política viciada por fisiologismo, nepotismo e corrupção. Se ficar, o bicho toma posse; se correr, assume o poder… Enquanto não houver uma séria reforma política, o PMDB será o grande fiel da balança desse circo chamado Congresso Nacional Brasileiro”.

CONCILIAÇÃO DO PT COM MOVIMENTOS SOCIAIS – “Julgo que é muito difícil. Ao longo de 13 anos de governo, o PT só se lembrou dos movimentos sociais – que lhe deram origem – na hora de apagar incêndios. Não valorizou os movimentos sociais como valorizou os empresários; pouquíssimo fez em defesa da reforma agrária, dos povos indígenas e dos quilombolas; mantém uma carga tributária altamente prejudicial ao consumidor pobre; constrói Belo Monte e outras hidrelétricas sem respeitar as populações locais, sobretudo indígenas e ribeirinhos; aprovou um Código Florestal vergonhoso para um país que fala em preservação ambiental, etc. Enfim, o PT no governo agarrou o violino com a esquerda e tocou com a direita… Embora eu considere os dois primeiros mandatos de Lula e o primeiro de Dilma os melhores de nossa história republicana”.

FUTURO DA ESQUERDA- Que esquerda? Cadê o trabalho de base, a formação de novos militantes, o projeto histórico? Milhões de brasileiros, desde 2013, ocupam as ruas para fazer protestos, e não para trazer propostas! Sem proposta alternativa ao que está aí, fundada em programa consistente de reformas estruturais, o Brasil não tem futuro, exceto o risco de passar do Estado de Direito para o Estado da direita.

FUTURO DO GOVERNO SE NÃO HOUVER IMPEACHMENT – “Vejo apenas uma saída: fazer o que fez Evo Morales na Bolívia, que hoje conta com o apoio do Congresso, da população e do mercado; apoiar-se em seus pilares de origem, os movimentos sociais. Fora disso, temo que queira recompor sua base política à base da receita tradicional do “toma lá, dá cá” – e não faltarão deputados federais e senadores que, no dia seguinte à reprovação da proposta de impeachment, estarão na fila do beija-mão na porta do Planalto”.

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