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Conheça a história de Elinaelson Souza, o jovem que trocou o mundo do crime pelo futebol

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Jucelene Oliveira
março16/ 2020

Não são raras as histórias de garotos pobres, negros, com famílias desestruturadas, moradores de periferias, que encontram no esporte uma maneira de fuga e redenção de uma realidade tão difícil. Sim, o esporte – mais especificamente o futebol – tem sido uma das principais opções de lazer e distração, além de uma atividade esportiva com viés profissional que oferece possibilidade de ascensão social.

Para o garoto pobre e com poucas perspectivas de vida, nascido numa pequena cidade do interior da Bahia chamada Nazaré, Elinaelson Souza, hoje com 22 anos, pode ser considerado um desses sobreviventes à vida “fácil” que a criminalidade e as drogas oferecem.

“Foram muitos momentos difíceis na infância e pré-adolescência. Eu morava em Salvador, em um bairro chamado Iapi, numa casa pequena com meus pais, três irmãs, um tio, a esposa dele e seus três filhos. Além disso, meu pai bebia muito. Era um homem trabalhador e honesto, mas o álcool acabava transformando-o em algo ruim. Ele chegava em casa alcoolizado e não foram poucas às vezes em que presenciei muitas coisas negativas; minha mãe apanhava muito e várias vezes saímos de madrugada para dormir na casa de outras pessoas porque as brigas eram constantes. Infelizmente eu tive vários amigos que se perderam para a criminalidade, acabei me deixando levar pelos problemas pessoais e familiares e também seguindo por esse caminho”, relembra.

Antes de encontrar uma alternativa para deixar a vida conturbada de brigas na escola e discussões acaloradas com o pai, Elinaelson relembra das marcas de um passado tão controverso.

“Várias vezes comi arroz com açúcar no almoço porque meu pai acabava gastando todo o dinheiro com bebidas. Nem sal tínhamos em casa. Minha mãe trabalhava duro como doméstica e cada vez mais eu ficava indignado com as atitudes do meu pai. As brigas com ele eram horríveis, e isso foi me deixando sempre mais revoltado. Infelizmente fui me afundando na criminalidade; tive de roubar e até mesmo traficar para sobreviver. Nunca usei drogas, mas trabalhei para que outros usassem”.

Apesar de sucumbir à violência e à vida de criminalidade (fazendo “favores” e assumindo o papel de aviãozinho), o garoto conta que sentia que viver era mais do que aquilo e que seguir por esse caminho, hora ou outra, poderia determinar para sempre um futuro de tristeza e marcas profundas.

“Eu reconheço que Deus sempre esteve ao meu lado, me dando forças e muitos livramentos, embora eu não merecesse. Eu era um pré-adolescente que não sabia o que era ser pré-adolescente, já que estava envolvido em coisas erradas e inadequadas para a minha idade. Depois de eu ter cometido tantos erros, olhei para trás e falei a mim mesmo ‘vou fazer diferente, vou jogar bola, fazer alguma coisa por mim’ e assim decidi mudar o curso da minha história”.

Apesar do medo que sentia ao tentar deixar a vida pregressa de erros e atropelos para seguir por outro caminho – de esforço e dedicação ao esporte – o jovem sonhador assumiu o risco e começou a se destacar.

“Eu decidi mudar a minha vida. Larguei tudo e fui morar em Salinas da Margarida. Chegando lá me dediquei ao futebol e, como Deus nunca nos abandona, senti que Ele foi me abençoando; e se eu estou aqui hoje, vivo e praticando futebol, é graças a Ele”.

O jovem jogador relembra com entusiasmo que o incentivo das pessoas o motivaram a investir cada vez mais no futebol. “Elas diziam que eu jogava muito bem. Eu vivia entre a ‘cruz e a espada’ como dizem, porque a vida no crime tem seu preço; apesar de ter ficado pouco tempo nessa prática, eu tinha medo de estar jogando e a polícia ou os bandidos aparecerem para acertar as contas comigo; eu vi alguns amigos morrerem no crime e por causa dele”, conta emocionado.

Quando chegou à Ilha (Salinas da Margarida), o jogador iniciante encarou vários campeonatos amadores para começar sua carreira. Ele foi se destacando nos jogos, mas conta que sentia que os clubes sempre fechavam as portas pelo fato de ele não ter condições financeiras, nem empresário que o subsidiasse.

“Depois de tantas dificuldades, certo dia decidi sair da Bahia para fazer o teste de um clube em São Paulo, o Andreense (a mesma equipe do goleiro Rene Menezes). Vim com a cara e a coragem, só com a passagem. Graças ao dom do futebol que Deus me deu, passei nos testes, mas os diretores do clube brigaram, se separaram e eu fiquei com um deles. Como ficaram muitos atletas na equipe, a estrutura não ficou muito boa e começamos a passar necessidade dentro do alojamento”.

Ele relata que alguns atletas que tinham suas famílias para ajudar estavam numa situação melhor porque recebiam dinheiro. “Alguns deles estavam bem, mas eu e outros, que não tínhamos família com condições para dar apoio, ficamos em maus lençóis. Já houve dias de não tomar café e ir treinar em jejum e, quando voltamos do treino, comemos arroz com ovo apenas. Era o que tinha”.

Apesar de todas essas dificuldades, Elinaelson Souza sempre se mostra grato a Deus pelo dom da vida, pelos livramentos que recebeu e pela possibilidade de ter conseguido mudar o curso de sua história.

“Deus novamente me abençoou e um empresário do meu amigo me viu jogando e gostou de mim, do meu trabalho. Ele me tirou de lá, junto com meu amigo, e fomos para Brasília. Hoje tenho um empresário que investe e acredita em mim, o Dr. Ataliba do Rio de Janeiro, e três propostas de times que não são muito grandes, mas que já é um ótimo começo”, diz orgulhoso.

Em paralelo à pratica esportiva, o jogador não perdeu de vista também a importância de estudar e se profissionalizar em outras áreas. “Estou 100% dedicado ao futebol porque esse é o meu grande sonho, mas tenho curso de bombeiro civil, desenhista mecânico e eletricista. Cheguei a trabalhar em São Paulo, mas logo abri mão para não perder o futebol do foco principal”.

A caminhada no esporte é um trabalho duro que exige dedicação, paciência e perseverança. Isso na prática significa uma rotina de treinos bem puxada: de segunda a sábado, das 9h30 às 11h30 e na parte da tarde, das 15h30 às 18h30.

Apesar dos desafios e dificuldades que todos os dias enfrenta, está claro que para o jovem sonhador e dedicado Elinaelson Souza, depois de tudo que passou e das novas escolhas que fez, vale muito a pena continuar. Ele, inclusive, conta que fez as pazes com o pai e que o perdoou pelos problemas do passado. “Hoje somos grandes amigos”.

Para conhecer seu trabalho, siga-o no Instagram: @eli10oficial

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