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“Censura é uma forma de esconder a corrupção”, afirma Gustavo Anitelli

Anitelli faz balanço de dez meses à frente da secretaria da cultura
portalregiaooeste
novembro11/ 2017

O ex-secretário de Cultura de Osasco, Gustavo Anitelli (PT), exonerado recentemente após forte pressão da Câmara de Vereadores, concedeu entrevista coletiva na tarde desta sexta-feira, 10. Anitelli fez um balanço de seus 10 meses à frente da secretaria e não poupou críticas ao legislativo municipal e ao prefeito de Osasco, Rogério Lins (PODEMOS).

A publicação de um cartaz onde Batman e Superman se beijavam e uma peça com críticas à Polícia Militar no Centro de Osasco foram os estopins dos movimentos de combate a Anitelli na Câmara. Ao tratar sobre o cartaz, o ex-secretário afirmou: “No meio de debates na internet, entre eles os feitos por forças ultraconservadoras tentando associar LGBT à pedofilia, alguns vereadores aprovaram uma moção de repúdio. E isso me assusta de várias formas. Disseram que (o cartaz) poderia interferir na vida das famílias e das crianças. Essa foi uma argumentação absolutamente conservadora, que implica num retrocesso horroroso, com o objetivo de inviabilizar qualquer manifestação artística ou social de uma comunidade LGBT.”

E Anitelli foi mais longe: “Para a Câmara, eu também deveria ter censurado a peça que falava mal da Polícia Militar. E já disse que nunca fiz e nem farei isso. E quero deixar bem claro: a censura é uma forma de esconder a corrupção. Hoje, a Câmara quer implantar algo que impeça críticas à Polícia Militar. Qual será o próximo passo? Provavelmente, algo que não permita mais críticas aos políticos da cidade.”

A postura de Lins diante destes fatos também foi destacada por Anitelli. “Como chefe do Executivo, mais cedo ou mais tarde o prefeito vai ter que se colocar em relação a esta censura na arte, sobre o debate LGBT. Se o líder do governo na Câmara tem uma posição ultraconservadora e agora eu sou retirado da secretaria, parece que o prefeito está absolutamente junto desta posição. Na minha opinião, a Câmara e o governo compactuarem com uma posição tão homofóbica significa a ruptura de um marco civilizatório.”

Recue e censure
Dentro do Executivo municipal, segundo Anitelli, a postura também foi conservadora. “Neste último período, recebi conselhos de alguns setores do governo para eu recuar no debate LGBT e também para eu censurar algumas ações. Seria normal que dois ou três vereadores de Osasco quisessem defender temas da extrema direita para ocupar um espaço que cresce no país, mas não esperava que o governo cedesse. Acho que o governo fez uma opção ruim neste caso. O que poderia ser uma renovação, conforme o Rogério tinha sinalizado, agora fica descaracterizado.”

Sem diálogo
Para o ex-secretário, com as mudanças a prefeitura perde um importante canal de comunicação com a sociedade. “Estávamos iniciando um trabalho com a juventude, movimentos culturais, com a população LGBT e com a juventude negra periférica e esse trabalho foi cortado. Agora, definitivamente, a prefeitura não está conseguindo dialogar com estes setores. A cidade está numa situação de emergência, com altíssimos índices de violência. O governo precisa saber combater isso. E esse combate não pode ser com mais violência, com mais truculência ou com descaso.”

Agora, segundo ele, o caminho é o das ruas. “Vamos fazer barulho em Osasco para construir uma cidade mais justa, mais democrática, uma cidade que aceite sua comunidade LGBT, que enfrente o racismo e a violência.”

Menos taxas, mais incentivos
Anitelli também criticou a postura da prefeitura ao querer taxar feiras culturais na cidade. “Fiquei chocado ao saber que duas feiras (dos Arteiros e da Santa) que fazíamos estão impedidas pela Sica (Secretaria de Indústria e Comércio) de realizar novas edições na cidade. E a justificativa é de que agora elas precisam pagar taxas. Nós construímos uma política pública de incentivo à economia solidária e criativa. O governo não tinha que taxar essas feiras. Tinha é que incentivar.”

Continuo no PT
Ao ser questionado sobre seu rumo político a partir de agora, Anitelli foi enfático. “Continuo no PT. Não fiz nenhum movimento de saída. Mas precisamos construir uma frente de esquerda. A saída para a crise do Brasil é essa.”

Cidade Chacina
Os abismos sociais que separam poucos ricos e milhões de pobres também foram atacados por Anitelli. “Osasco é a cara do Brasil, sendo muito rica e extremamente desigual. Além disso, temos problemas sociais que não são admissíveis. Hoje, Osasco é chamada de cidade chacina do Brasil. A juventude em Osasco vive uma situação de vulnerabilidade altíssima e nós acreditamos que a cultura, como elemento de cidadania, pode resgatar este público. Disse ao Rogério Lins, quando fui convidado para ser secretário, que os temas Juventude Viva e LGBT eram fundamentais para nossa gestão. E, na época, ele concordou.”

Inovações
Ao falar de sua gestão à frente da secretaria, Anitelli disse que foi um período extremamente saudável e produtivo, mas foi duro com a burocracia da máquina governamental. “Desenvolvemos diversas estratégias para que a cultura realmente chegasse à população. Dentre elas, a reestruturação da Escola de Artes, a construção de um Centro de Cultura Digital, a criação de um estúdio público e a readequação das bibliotecas, que não recebem investimentos há muito tempo. Trabalhamos para realizar os saraus da cidade, Carnaval de rua, exposição das batalhas de Rap, estruturar a semana LGBT e o Novembro Negro, entre outras ações. Mas pegamos um orçamento de R$ 11 milhões ao ano, com um valor real de R$ 1 milhão que a gente consegue usar nas atividades. Há prefeituras que conseguem investir até 60% do orçamento na atividade fim. Em Osasco, este valor fica em menos de 10%, o que é muito ruim. O dinheiro para na burocracia do estado e não chega onde é realmente importante.”

Um dos pontos mais importantes, segundo Anitelli, foi a reabertura do diálogo com os movimentos culturais e com a população. “Também reestruturamos o Conselho de Cultura, em especial as setoriais de cultura, entre elas a de grafite, que desencadeou a primeira reação nervosa da Câmara de Vereadores. Colocamos as Batalhas de Rap como patrimônio cultural de Osasco, ao invés de criminalizá-las, como acontecia na gestão anterior. Junto com a Universidade Federal de Osasco, estávamos para entregar o mapeamento cultural da cidade e isso precisa ser mantido. Reestruturamos e encaminhamos ao jurídico da prefeitura o edital de fomento da cidade, que é fundamental. Há R$ 500 mil parados numa conta da secretaria de cultura e este dinheiro é dos artistas da cidade. Foi um período de imersão muito bacana, muito saudável.”

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