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A memória faz parte do que somos

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Jucelene Oliveira
setembro09/ 2018

Foto: Fabio Motta_Estadão

Um dia depois de dizer que há “viúvas apaixonadas chorando” pelo incêndio no Museu Nacional, o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, divulgou nota para dizer que sua declaração é uma referência a setores da imprensa, “militantes políticos” e à direção da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Segundo o ministro, esses três setores nada fizeram pelo Museu antes do incêndio.

A maioria dos presidenciáveis publicou nas redes sociais declarações lamentando a catástrofe e lembrando a importância do museu para a história. Alguns aproveitaram o fato para atacar e responsabilizar adversários. Foi o caso do presidenciável Jair Bolsonaro e da vice na chapa de Alckmin, Ana Amélia, que tentaram culpar o partido por filiação política do reitor da UFRJ.

Enquanto parte da esquerda atribui culpa ao atual governo, embora a instituição apresentasse problemas em suas instalações desde 2004, os postulantes de direita decidiram apostar suas fichas no PSOL. Bolsonaro, PSL, afirmou que a administração “é de gente filiada ao PSOL e ao PCdoB”. “A indicação política leva a isso”, disse o candidato. Já Ana Amélia seguiu a mesma linha em uma entrevista concedida à Globo News, ao afirmar que o caso “tem a ver, sim, com o partido”.

Afinal, o que o Museu Nacional representava?

A origem da palavra museu vem do grego mouseion, que significa “templo para as musas”. Na Grécia Antiga, as musas eram as deusas da eloquência, da história, da música, da dança, das poesias, da tragédia, da comédia e da astronomia. Mouseion era um espaço de inspiração intelectual e divina.

O que o terrível incêndio ocorrido domingo passado, 2, no Museu Nacional, diz sobre nossa memória? Sobre a memória de um País, de um povo, de sua nação? Eram 20 milhões de itens, entre eles Luzia, o mais antigo fóssil encontrado nas Américas. O Museu Nacional deixou de existir diante dos nossos olhos. Tratava-se da instituição científica mais antiga do Brasil, ligada à Universidade do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ele foi residência de D. João VI e de seus descendentes imperiais. Sediou a assembleia constituinte republicana no fim do século 19 e completou seu bicentenário em junho deste ano. O que a TV e a internet registraram foi tudo indo pelos ares: documentos, objetos, coleções, estudos e o mobiliário do Museu Nacional, localizado na Quinta da Boa Vista. O local também abrigava registros não digitalizados de línguas nativas que já não existem mais.

Uma das maiores preocupações é com o material coletado no sítio arqueológico de Lagoa Santa, no Estado de Minas Gerais, considerado de fundamental importância para entender as origens dos povos americanos pré-históricos. O museu abrigava o maior acervo do mundo coletado no Estado: cerca de 200 indivíduos fossilizados que integram o que os pesquisadores chamam de “o grupo de Luzia”, em referência ao nome dado ao mais antigo esqueleto já encontrado nas Américas, descoberto em 1974, e com idade aproximada de 11.500 anos.

De acordo com matéria do jornal El País Brasil, para nossa sorte, alguns departamentos do museu, localizados fora do prédio principal do palácio, continuam intactos. Os invertebrados, com 500.000 espécies, e o de botânica, que possui um herbário com mais de 450.000 exemplares. Também se salvou o meteorito Bendegó, o maior do Brasil e o 16º maior do mundo.

Num momento em que tudo é tão virtual, a conservação da memória material parece ter perdido muito de seu sentido. Segundo Jussara Derenji, presidente do Comitê Nacional da Memória do Mundo da Unesco, em entrevista ao Estadão “no tempo em que vivemos, parece que temos acesso a todo tipo de informação, que não temos mais a necessidade de termos um objeto, de termos a fonte física que já obtivemos por via midiática. Mas a conservação do documento é essencial. O objeto dá origem a outras formas de pesquisa, a outras leituras, a outras formas de interpretação. Isso é parte do processo de pesquisa. A base tem de ser mantida. É a nossa memória, é o equivalente ao lugar da memória. Essa base, essa visualização do objeto, vai desaparecer”.

Embora o papel de um museu seja o de abrigar o que é considerado passado, ele está sempre pronto a assumir significados produzidos no presente e aqueles de um futuro que ainda conheceremos.

Ainda não há um balanço preciso do que se perdeu e do que se salvou. Mas, apesar da dimensão das perdas e do clima de desalento, professores e alunos se mostram dispostos a reconstruir de alguma forma o Museu Nacional o mais rapidamente possível.

Para mais notícias e informações, consulte o site do Sinprosasco: http://www.sinprosasco.org.br.

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