• Hoje é: quinta-feira, fevereiro 20, 2020

A educação na “Idade das Trevas”

trevas
Jucelene Oliveira
dezembro17/ 2019

Texto: Diretoria do Sinprosasco

A expectativa em relação à política educacional do atual governo não decepcionou ninguém que possuía o mínimo de conhecimento das propostas feitas durante a campanha eleitoral.

A seus correligionários ofereceu uma série de medidas conservadoras – com cortes financeiros em áreas específicas e incômodas, para as mentes fechadas que não conseguem enxergar o processo educacional como uma prática libertadora e transformadora; para a oposição ofereceu um pacote de medidas já esperada de perseguição às ideias contestadoras que se multiplicavam nas universidades; censura, desqualificação de centros de excelência na produção do conhecimento. Enfim, adotou medidas muito semelhantes das utilizadas durante a Idade Média, no continente europeu, que conduziu o mundo à uma fatídica “Idade das Trevas”.

Das “brincadeiras” adotadas durante a campanha eleitoral, como a tese da “Terra Plana”, as “mamadeiras de piroca”, “meninos usando azul e meninas usando rosa”, para citar apenas exemplos de maior destaque, a ascensão ao Ministério da Educação do “Senhor” Abraham Bragança de Vasconcellos Weintraub é, sem dúvida nenhuma, a maior de todas, feita pelo “Senhor” Presidente da República para um campo tão precioso.
A indicação do colombiano Ricardo Velez Rodriguez já tinha sido uma das brincadeiras de mau gosto do atual “governador” do Brasil, convocar para ministro um senhor indicado pelo astrólogo e mentor intelectual do governo, Olavo de Carvalho, não nos dava muitas esperanças em relação aos caminhos que seriam trilhados pelo MEC.
Em pouco tempo a indicação se mostrou desastrosa. Desde a afirmação de que os brasileiros no exterior se comportam como canibais, que roubam coisas nos hotéis, passando pela ideia de que a universidade não é para todos, a sugestão das crianças utilizarem o slogan da campanha do presidente, gravar e denunciar professores, e finalizando na decisão de revisar os livros de História com o objetivo de apagar a “Ditadura Militar” de nosso passado recente – deixavam claro sua incapacidade administrativa, desconhecimento da realidade brasileira e um profundo apreço pela perpetuação da ignorância e desprezo pela produção intelectual.

A chegada do senhor Weintraub ao Ministério da Educação não causou perplexidade apenas pelo seu currículo escolar vergonhoso – durante sua graduação no curso de economia na Universidade de São Paulo, em que foi reprovado em nove disciplinas em apenas dois semestres – além de ter tirado zero em outras delas e apresentar baixa frequência escolar – tampouco pela dificuldade vernacular, cometendo erros crassos na divulgação de ofícios dentro do Ministério, muito menos pela sua falta de conhecimento sobre autores clássicos da literatura mundial, mas sim, por sua falta de habilidade para a resolução de problemas e pela grandiosa habilidade em criá-los.

Filmar professores em aula sem a devida autorização violando direitos fundamentais dos educadores, cortes no orçamento das universidades federais a título de “contingenciamento”, ofensas a Emmanuel Macron, presidente francês, chamando-o de “sem caráter” ou dizendo que ele era “apenas um calhorda oportunista”; confusões conceituais relacionando o Nazismo e Socialismo, além de um permanente conflito com a imprensa são algumas das habilidades do atual ministro. A lista é grande.
Em sua última investida o senhor ministro, demonstrando total desconhecimento da pasta que deveria atuar, classificou as universidades públicas brasileiras de “madraças” (escolas muçulmanas) de doutrinação, produtoras extensivas de maconhas e laboratórios para produção de drogas ilícitas, desqualificando totalmente o ambiente universitário público brasileiro, obviamente sem apresentar qualquer prova sobre o que estava dizendo.

Mal sabe o senhor ministro que quinze universidades públicas brasileiras são responsáveis por 60% da produção científica do País. Contradizendo as duras falas dirigidas a estes ambientes, a produção de trabalhos acadêmicos em colaboração com a indústria vem crescendo de forma exponencial no Brasil. A esmagadora maioria dessas colaborações é feita com universidades públicas. A produção cientifica no país cresceu 30% entre 2013 e 2018, o dobro da média mundial. O Brasil é o 13º produtor de ciência no mundo, apesar dos cortes de orçamento.

Segundo relatório da empresa Clarivate Analytics publicado recentemente, a produção cientifica brasileira possui um pequeno impacto no cenário internacional, por aprofundar pesquisas e produzir conhecimento voltado para os problemas nacionais.

O caso das ciências agrárias, por exemplo, que se relaciona a questões climáticas e geográficas específicas. Porém, nosso índice de impacto (CNCI – Impacto de Citações Normalizado por Categoria) das ciências está em 0,88, quando a média mundial é 1,0 – nos colocando à frente de países como a Índia e a Rússia e quase empatando com o Japão.

As áreas com o maior índice de impacto, segundo o estudo, são as de Humanidades e Ciências Sociais Aplicadas — justamente as mais criticadas e consideradas de menor relevância pelo Governo Federal.

Diante desses dados cabe uma pergunta para promover reflexão coletiva: o que o senhor Weintraub pensa e tem como projeto para o desenvolvimento da educação brasileira?

Retomar os princípios medievais de educação e promover um modelo dogmático voltado apenas para validar as ações e pensamentos de um governo marcado pela intolerância, pelo preconceito e avesso ao empirismo?

A postura do senhor ministro em suas colocações acintosas deixam claro que o mesmo não possui envergadura para um Ministro de Estado, muito menos de uma pasta tão preciosa; a luta pela qual esse “Dom Quixote” às avessas deveria se empenhar é aquela das maiores mazelas de nosso sistema de ensino como o desafio da redução da evasão escolar e da repetência, melhoria da proficiência em várias disciplinas, profissionalização e incentivo aos programas de extensão e pós-graduação.

Enfim, procurar encaminhar nosso sistema educacional para um caminho de luz e não enveredar-se nas trevas da Idade Média, criando polêmicas e esvaziando debates sociopolíticos e culturais fundamentais para a construção da cidadania.

Para ter acesso a conteúdos de interesse dos professores, da educação e do Brasil, acesse nosso site: www.sinprosasco.org.br e nos siga nas redes sociais: facebook.com/sinprosasco/ e instagram.com/sinprosasco/.

Palavras-chave: #educacao #ministrodaeducação #AbrahamWeintraub #idadedastrevas #sinprosasco #sindicatodosprofessores #cortesnaeducação

big banner